Aparelho: Forno de microondas Electrolux modelo MEP41
Defeito: aquecimento acionado mesmo sem comando
A queixa em relação a este aparelho era que havia aquecimento na cavidade mesmo sem respectivo o comando. O cliente, detentor de um bom conhecimento técnico, sabia dos perigos da radiação de frequência de microondas.
Após aberto, realizei uma inspeção visual, constatando a excelente técnica construtiva do fabricante. Apesar de contar com um bom tempo de uso, tudo estava em ordem internamente, sem sinais de manutenção anterior. Pelo Google, encontrei facilmente o manual de serviço:
https://drive.google.com/file/d/18FFPhuB1uvPF1AtwmV059E-es9b6ztE-/view
Está em português, mas como a Electrolux é uma marca de atuação mundial, não deve ser difícil encontrá-lo em outros idiomas.
A qualidade do manual me impressionou: muito bem redigido, muito didático, com desenhos elucidativos e com fotos coloridas, proporcionando uma fartura de informações ao técnico reparador. O diagrama elétrico detalha inclusive as cores dos fios em cada ponto, facilitando sobremaneira o trabalho do técnico em caso de fios desligados. Um aspecto negativo, porém: não há qualquer detalhe sobre a placa de comando, o que chegou a fazer falta na presente manutenção, como se verá abaixo.
Abri o aparelho e desconectei os dois fios que levam a alimentação da rede (127 V neste caso) ao trafão, como é chamado o transformador pesado responsável pela alimentação da válvula Magnetron, esta responsável por gerar a potência de microondas que aquece a cavidade onde os alimentos são colocados. Conectei as pontas de prova do multímetro a esses fios e liguei o aparelho na tomada. De imediato, o multímetro acusou a presença de 127 V. Situação totalmente anormal, visto que para isso deveria ter sido digitado algum comando no teclado do painel, o que não tinha ocorrido. Se os fios estivessem ligados ao trafão, a válvula Magnetron estaria funcionando em sua potência máxima, e o que é pior: sem contar com a refrigeração pela ventoinha, que permanecia desligada. Essa situação leva a um sobreaquecimento da válvula Magnetron, encurtando consideravelmente sua vida útil.
Abri a porta do aparelho, e o multímetro mostrou que a tensão da rede deixou de ser aplicada, evidenciando o correto funcionamento das três microchaves de segurança associadas à porta. Por desencargo de consciência realizei um teste detalhado nas microchaves, o que comprovou o funcionamento correto.
Ficou a pergunta: porque chega alimentação ao trafão sem que haja qualquer comando? Esta alimentação é aplicada mediante o funcionamento conjunto de um relé na placa de comando e da lógica de chaveamento das microchaves acionadas pela porta da cavidade de aquecimento. Com o funcionamento das chaves já tinha sido comprovado, as atenções se voltaram para a placa de controle e o relé.
A placa tem três relés, sendo que o maior deles é o responsável pela comutação da alimentação para o trafo. Este relé é identificado pela seta vermelha na foto à esquerda abaixo:

A saída dos contatos de potência deste relé é pela parte superior do componente (não passa pelo circuito impresso da placa), via conector branco visível na foto acima. Se houver continuidade pelos contatos do relé, isso resulta no envio da tensão da rede ao trafão, conforme já constatado acima. Como o acionamento estava ocorrendo mesmo sem qualquer comando no teclado do painel, ficou evidenciado que poderia haver um problema nos contatos. O conector (foto direita acima) foi removido e um rápido teste com o multímetro comprovou a continuidade espúria. Contatos “colados”, com se diz no jargão. Isso pode ocorrer devido a travamento mecânico do relé (raro de acontecer) ou a fusão dos contatos entre si. Essa fusão é motivada pelo arco voltaico entre as duas lâminas de contato quando ocorre a comutação, lembrando que a quanto maior a potência comutada, maior é o arco voltaico e maior a temperatura no ponto. No caso presente, toda a alta potência entregue à válvula Magnetron passa por esse contatos, agravando o efeito térmico do arco voltaico. Com o uso contínuo, as lâminas de contato vão ficando cada vez mais deterioradas, e com a alta temperatura resultante dos arcos voltaicos, acaba ocorrendo a fusão entre as duas lâminas, que não mais se separam. Talvez fosse o que estava acontecendo neste caso.
Removi a placa eletrônica de controle e dessoldei o relé, que pode ser visto na figura abaixo:
O relé foi testado de forma isolada, não só confirmando a continuidade indevida entre as duas lâminas com o componente desligado, como também afastando a possibilidade desta continuidade vir de algum ponto do circuito impresso. Os pontos de acesso aos contatos são os dois pinos na parte superior da figura, onde vai encaixado o conector branco já mostrado.
Tentei abrir o relé, mas descobri que foi construído de forma a não permitir isso. Relé chinês, para variar. Muitos relés convencionais permitem extrair a tampa, deixando exposto todo o interior do componente, permitindo assim uma comprovação de funcionamento. Tive que ir quebrando por partes o invólucro externo, até conseguir visualizar seu interior:

À esquerda é mostrado o relé como um todo. À direita aparece um detalhe das duas molas de contato, mostradas encostadas uma na outra. Acabei descobrindo que na verdade elas não estavam fundidas, e sim que havia um travamento mecânico interno de todo o mecanismo (o defeito raro que me referi acima), empurrando as lâminas uma contra a outra e impedindo que se separassem. Qualidade chinesa…
Obtive facilmente o relé de reposição no comércio eletrônico da minha cidade. Pelo menos foi barato. O que explica a qualidade discutível.
Ressoldei o relé no circuito impresso e recoloquei a placa na posição. Com tudo montado, e sem ainda encaixar os conectores à placa, refiz o teste com o multímetro, comprovando que não mais havia continuidade com o relé desoperado. Encaixei de volta os conectores e os dois fios ao trafão. Fiz uma nova inspeção visual, encontrando tudo correto.
Liguei o aparelho na tomada e o display do painel de controle se iluminou, evidenciando um retorno ao normal. Uma medição nos terminais do primário do trafão mostrou que agora não havia mais a tensão da rede.
Coloquei um copo d´água na cavidade de aquecimento e programei para um minuto. Ao acionar a tecla Início, o multímetro mostrou que a tensão da rede tinha sido enfim aplicada ao trafão e a ventoinha estava funcionando. Decorrido um minuto, constatei que a água do copo estava bem aquecida, mostrando que o problema estava resolvido.
Restava a dúvida sobre o estado da válvula Magnetron, tendo em vista que deve ter funcionado sem a assistência da ventoinha, operando portanto sem ventilação por um tempo que não se pode estimar ao certo. Principalmente porque uma verificação mais atenta da válvula mostrou que uma das aletas de refrigeração estava solta, coisa que eu nunca tinha visto. A válvula está funcionando conforme o teste, porém sua vida útil daqui para frente é uma incógnita. Alertei o cliente deste fato, após fechar o aparelho e entregá-lo.
Por Henrique J. G. Ulbrich, Fevereiro de 2025




