O show do Roger Waters, fundador do Pink Floyd, começou em Curitiba (assim como em outros locais) com um bom e grande aviso no telão e em voz: “Se você for um daqueles que diz ‘Eu amo o Pink Floyd, mas não suporto as visões políticas do Roger’, então vaza pro bar”. E imediatamente a isso, o show da turnê “This is Not a Drill” começa com um bombardeio de críticas às mazelas da política e da polícia ao redor do mundo, além de imagens fortes (muito fortes, a ponto de algumas pessoas taparem os olhos).
Em Curitiba, Roger Waters se apresentou na Arena da Baixada, o Estádio do Athletico Paranaense, no dia 4 de novembro, um sábado. Não é um show para cantar ou dançar o tempo todo. E sim para, além de relembrar a época de ouro do Pink Floyd, pensar, refletir muito. O cérebro sai “cozido”, de tanta informação a se considerar.
E para quem ainda não viu um show de Roger, novo spoiler: não vá esperando ouvir somente canções do Pink Floyd. A apresentação tem, no máximo, 40% de músicas da banda, das quais nem todas o público sabe cantar ou conhece. O restante é composto por músicas que Roger lançou após o fim do Pink Floyd, sob o seu selo independente. Músicas que o público pouco conhece. Mas vibra da mesma forma, já que Roger Waters é cativante, envolve o público, interage o tempo todo com seus músicos e backing vocals (aliás, Shanay Johnson e Amanda Belair tem uma marcante presença de palco e suas vozes entram na alma de quem escuta).
Assista a música de abertura do show:
Da época do Pink Floyd
Falando em entrar na alma, Dave Kilminster, guitarrista, também é especialista nisso. Tocou de olhos fechados, fazendo a música entrar dentro de cada entranha do corpo dele e de quem ouve. O solo de Money de Dave foi algo imperdível. Sem contar o teclado de Jon Carin, músico que acompanha Roger desde a época do Pink Floyd, do álbum Pulse.
Bem, mas vamos voltar a Roger! O palco – que não foi central como nas apresentações ao redor do mundo – tinha quatro enormes telões de alta definição, que trazem uma explosão de emoção a cada música, com centenas de mensagens e imagens.
A primeira música do show é Comfortably Numb, na qual enfermeiros trazem uma cadeira de rodas e Roger vem logo atrás, vestido de médico. O público vai ao delírio e a canção explora o quanto estamos entorpecidos com as questões sociais à nossa volta e não conseguimos reagir.
Em seguida, ao som de The Wall, o telão mostra palavras como “Nós”, “Bons”, “Diabo”, “Eles”, iniciando suas críticas ao governo americano e sua forma de julgar a todos.
Em seguida, o show mostra cenas de violência policial ao redor do mundo, nas quais inocentes foram mortos sem motivo. Pessoas que foram executadas só por serem palestinas, negras ou pobres. Os telões mostram os rostos de presidentes americanos e seus crimes de guerra, como mortes na Guatemala, financiamento de armas químicas, regularização de ataques com drones, até chegar em Joe Biden, com a mensagem “Apenas começando…”. Um completo discurso contra o ódio, o preconceito, o fascismo, a intolerância, o capitalismo e a guerra, alimentado por muitas imagens em telões e pirotecnia.
Saudades e homenagens
Uma das canções mais esperadas, “Wish Your Here”, Roger conta no telão a sua história com seu amigo Syd Barret, com quem fundou Pink Floyd na década de 1960. Mas Syd sofria de esquizofrenia, afastou-se da banda anos depois. Morreu em 2006. E Roger faz uma homenagem a ele.
Claro que a canção “Sheep” não poderia faltar, junto com a ovelha gigante inflável, que passa sobre a cabeça do público. Conforme o guitarrista Dave Kilminster revelou em um post no Instagram, a ovelha tem até nome: Brian.
Jornalistas que sofrerem violência também foram lembrados. Tanto que, na entrada da Arena da Baixada, um grupo de pessoas distribui panfletos para que todos engajem no movimento em prol da libertação de Julian Assange. Entre outras denúncias, ele divulgou imagens de um erro dos Estados Unidos, que matou dois cinegrafistas da agência Reuters, em Bagdá, porque carregavam lentes de câmeras fotográficas e foram confundidos com criminosos, segurando armas. A ordem para matá-los não considerou nenhuma averiguação. Simplesmente: “elimine todos”. O assassinato dos cinegrafistas – com tiros aéreos, vindos de um helicóptero – é mostrado no telão e muita gente não consegue assisti-las.
Depois de um intervalo, Roger volta ao palco. Desta vez na cadeira de rodas, com uma roupa à prova de força. É quando um novo balão inflável sobrevoa o público. Um porco, estampado de tijolos de muro (em referência a música Another Brick in the Wall). No porco, a mensagem, referindo-se à Roger na cadeira de rodas: “Ele é louco. Não o escutem”. Afinal, como o músico mostra em sua mensagem, muitas vezes aquele que fala a verdade é “pintado” de louco. Quando Roger começa a se exaltar no microfone, os enfermeiros lhe aplicam uma “nova injeção”. Roger “dorme” na cadeira e é retirado do palco pelos enfermeiros.
Logo ele volta, cantando suas músicas solo. Uma parte do show com menos críticas à política mundial, mas mostrando vítimas inocentes, rostos de pessoas, a cultura ao redor de muitos locais do mundo, mostrando o quanto as pessoas devem ser livres e felizes em suas comunidades e com a sua cultura. E o quanto a guerra e a brutalidade da polícia pode acabar com sonhos e culturas.
Depois de tantas críticas, de um bombardeio de mensagens e imagens, nada melhor que tomar uma no bar, não? Entre as canções performar por Roger Waters está “The Bar”. Antes, ele deixa o público curioso, sobre o que é o líquido na garrafinha ao lado de seu piano. Ele garante que é água. E toca “The Bar”. Mas nas duas últimas canções, ele literalmente transforma o seu piano de calda num bar. Cadeiras de bar são colocadas ao redor do instrumento e ele chama todos os músicos para “tomar uma”. E pelo visto, desta vez, é cachaça de verdade, pela cara que muitos fazem ao tomar o shot de uma vez só.
E assim o cortejo de músicos segue agora até o backstage, onde o show termina cheio de críticas, mensagens, mas também muita música de qualidade e claro, o Roger Waters!
Aos 80 anos, sem medo de ser criticado, Waters alia arte e política num show hipnotizante. Nunca a política de humanização de Waters fez tanto sentido como agora.
Veja como foi a setlist do show:
Parte 1
Comfortably Numb
The Happiest Days of Our Lives
Another Brick in the Wall, Part 2
Another Brick in the Wall, Part 3
The Powers That Be
The Bravery of Being Out of Range
The Bar
Have a Cigar
Wish You Were Here
Shine On You Crazy Diamond (Parts VI-VII, V)
Sheep
Parte 2
In the Flesh
Run Like Hell
Déjà Vu
Déjà Vu (Reprise)
Is This the Life We Really Want?
Money
Us and Them
Any Colour You Like
Brain Damage
Eclipse
Two Suns in the Sunset
The Bar (Reprise)
Outside the Wall
Assista aqui vários trechos do show







