
Nunca se falou tanto em emagrecimento. Seja pela popularização de novos tratamentos para obesidade, pelo crescimento da prática de atividade física ou pela busca por um estilo de vida mais saudável, milhões de brasileiros estão tentando perder peso. Mas uma pergunta importante tem ganhado espaço entre os especialistas: emagrecer significa, necessariamente, estar mais saudável?
A resposta é não.
Embora a balança indique quantos quilos uma pessoa perdeu, ela não mostra de onde esse peso saiu. A redução pode ter ocorrido principalmente às custas da gordura corporal, mas também pode representar perda de massa muscular, um fator que interfere diretamente na força, no metabolismo e na qualidade de vida.
Essa diferença ajuda a explicar por que duas pessoas com o mesmo peso, altura e Índice de Massa Corporal (IMC) podem apresentar riscos completamente diferentes para doenças cardiovasculares, diabetes e outras alterações metabólicas.
Segundo a médica radiologista Cristiane Spadoni, da Clínica Imax, em Curitiba, é justamente por isso que a avaliação da composição corporal vem ganhando cada vez mais importância na Medicina.
“Durante muitos anos, a principal pergunta era quanto a pessoa pesava. Hoje sabemos que essa informação, isoladamente, diz muito pouco sobre a saúde. O mais importante é entender do que esse peso é formado. Independentemente da forma como a pessoa emagreceu, ela precisa saber o que perdeu”, afirma.
Peso não é composição corporal
A composição corporal corresponde à proporção entre gordura, músculos e ossos. Enquanto a balança informa apenas o peso total, exames específicos conseguem mostrar quanto desse peso corresponde à massa muscular, à gordura corporal e onde essa gordura está distribuída.
Entre os principais pontos avaliados está a gordura visceral, localizada profundamente na região abdominal, ao redor dos órgãos internos. Diferentemente da gordura subcutânea (aquela localizada logo abaixo da pele) a gordura visceral apresenta maior associação com doenças como diabetes tipo 2, hipertensão arterial e problemas cardiovasculares.
Outro aspecto importante é que pessoas com aparência considerada “normal” também podem apresentar alterações importantes.
É o caso da chamada TOFI (Thin Outside, Fat Inside), expressão utilizada para descrever indivíduos magros por fora, mas com excesso de gordura visceral. Há ainda a chamada obesidade sarcopênica, caracterizada pela associação entre excesso de gordura corporal e baixa massa muscular, condição que pode passar despercebida quando a avaliação se limita ao peso ou ao IMC.
“Duas pessoas podem pesar exatamente 70 quilos e terem riscos completamente diferentes. Uma pode apresentar excelente quantidade de massa muscular e baixo percentual de gordura, enquanto outra pode concentrar gordura visceral e pouca musculatura. O número na balança é o mesmo, mas a saúde dessas duas pessoas pode ser muito diferente“, explica a Dra. Cristiane.
A era da composição corporal
O avanço das pesquisas sobre obesidade e metabolismo tem levado profissionais de diversas áreas a olhar além da balança.
Nutricionistas, endocrinologistas, cardiologistas, médicos do esporte e educadores físicos utilizam cada vez mais informações sobre composição corporal para acompanhar tratamentos, definir estratégias nutricionais, ajustar programas de treinamento físico e monitorar os resultados obtidos.
Uma revisão científica publicada em 2025 na revista Metabolism, que reuniu resultados de 22 estudos clínicos envolvendo mais de 2.200 pacientes, mostrou que medicamentos utilizados no tratamento da obesidade promovem importante redução de gordura corporal, mas parte do peso perdido também corresponde à perda de massa magra. Os pesquisadores estimaram que, em média, cerca de um quarto do peso eliminado ocorreu às custas da massa magra, reforçando a importância do acompanhamento da composição corporal durante o processo de emagrecimento.
Ao mesmo tempo, a obesidade continua avançando no Brasil. Dados mais recentes do Vigitel mostram que mais de 60% da população adulta apresenta excesso de peso e que a obesidade praticamente dobrou nas capitais brasileiras nas últimas décadas.
Para a médica radiologista Dra. Andrea Cianfarano, esses dados mostram que o foco da assistência à saúde está mudando.
“Hoje não basta acompanhar apenas a redução dos quilos. O objetivo é saber se o paciente está realmente perdendo gordura, preservando massa muscular e melhorando sua composição corporal. Essas informações ajudam nutricionistas, endocrinologistas, médicos e educadores físicos a individualizar o tratamento e acompanhar sua evolução com muito mais precisão“, afirma.
O que a densitometria corporal revela
Entre os exames utilizados para essa avaliação está a densitometria de corpo inteiro, capaz de analisar detalhadamente a composição corporal. Além de medir a massa óssea, o exame fornece informações como percentual de gordura corporal, quantidade de massa muscular, distribuição regional da gordura e estimativa da gordura visceral.
Esses dados permitem acompanhar de forma objetiva os resultados de programas de emagrecimento, ganho de massa muscular, reabilitação física e acompanhamento nutricional.
Segundo a Dra. Cristiane, o exame também ajuda a responder uma dúvida comum entre pacientes que treinam regularmente.
“É muito frequente encontrarmos pessoas frustradas porque o peso praticamente não mudou. Em muitos casos, elas perderam gordura e ganharam massa muscular ao mesmo tempo. A balança não consegue mostrar essa diferença, mas a avaliação da composição corporal revela exatamente o que aconteceu e permite um acompanhamento muito mais preciso da saúde“, conclui.
O que a densitometria de corpo inteiro pode mostrar
- Percentual de gordura corporal;
- Quantidade de massa muscular;
- Distribuição da gordura pelo corpo;
- Estimativa de gordura visceral;
- Comparação entre exames realizados ao longo do tratamento;
- Acompanhamento de programas de emagrecimento, atividade física e nutrição.

